África encontra-se numa encruzilhada determinante, com o seu futuro condicionado pela interacção de dois grandes desafios: as alterações climáticas e a sustentabilidade da dívida. Historicamente tratadas como questões distintas, a gestão ambiental por um lado, e as políticas fiscais por outro, estas estão agora intimamente ligadas. As crescentes perturbações relacionadas com o clima já não se cingem a impactos ambientais, tendo-se transformado em riscos fundamentais para as economias nacionais, afectando a estabilidade macroeconómica, os orçamentos públicos e o acesso do continente aos mercados financeiros internacionais.
África enfrenta vulnerabilidades estruturais enraizadas, entre as quais a pobreza generalizada, fracos níveis de poupança, estruturas de governação fracas e custos elevados de financiamento, o que aumenta significativamente a exposição do continente a choques climáticos. Catástrofes relacionadas com o clima, como secas, inundações e ciclones, causam extensos danos directos a infraestruturas críticas, à agricultura e aos sistemas energéticos, ao gerarem pressões fiscais indirectas pela perda de receitas, aumento das despesas para lidar com emergências e aumento das necessidades de financiamento. Os riscos que antes eram vistos principalmente como ambientais evoluíram agora para riscos de crédito soberano materiais, uma vez que os choques climáticos recorrentes aceleram a acumulação de dívida e comprometem cada vez mais a sustentabilidade fiscal e a estabilidade macroeconómica.
Estima-se que os países africanos perdem entre 2% e 5% do seu Produto Interno Bruto (PIB) anualmente devido a catástrofes relacionadas com o clima. Muitos governos estão a afectar até 9% dos orçamentos nacionais a acções de resposta a emergências. Na África Subsariana, prevê-se que os custos de adaptação atinjam entre 30 e 50 mil milhões de dólares americanos anuais na próxima década, ou seja cerca de 2% a 3% do PIB da região. Essas despesas substanciais com a adaptação demonstram a magnitude do desafio. As consequências são de longo alcance, e passam por perdas de colheitas e de gado, escassez de água, danos às infraestruturas, aumento do risco de doenças e impactos económicos que afectam mais fortemente as comunidades vulneráveis.
A intersecção entre a vulnerabilidade climática e o endividamento desencadeia um ciclo perigoso. Os choques climáticos aumentam a necessidade de financiamento, mas os altos níveis de endividamento condicionam a capacidade dos governos de investir na resiliência climática. Esta dita “armadilha climático-financeira” intensifica as pressões fiscais, aumenta os custos de financiamento e prejudica a capacidade dos países de resistir e recuperar de choques futuros. Na ausência de mecanismos de financiamento criativos e de um apoio institucional robusto, África fica refém da reincidência de crises.
Para dar resposta a estes desafios, a Iniciativa Colaborativa para a Reforma Orçamental em África (CABRI) está a organizar um diálogo de três dias nas Maurícias, de 25 a 27 de Março de 2026, que reunirá gestores da dívida, decisores políticos e outras partes interessadas importantes de todo o continente. O evento irá centrar-se na intersecção entre as alterações climáticas e a dívida, da perspectiva dos responsáveis pela gestão das carteiras de dívida nacionais. Os gestores da dívida e os decisores políticos estão bem posicionados para analisar como os choques climáticos afectam os custos de financiamento, as notações de crédito e a flexibilidade financeira, bem como para considerar a integração de instrumentos financeiros inovadores nas estratégias de gestão da dívida a médio prazo.
Uma solução importante em debate passa pelos swaps de dívida por acções climáticas, que permite aos países reestruturar ou reduzir a sua dívida em troca de compromissos de investimento no domínio da resiliência climática. Tais mecanismos podem criar espaço fiscal, reduzir a dívida externa e promover a sustentabilidade da dívida, ao mesmo tempo que direccionam financiamento estável e de longo prazo a iniciativas climáticas. Exemplos das Seicheles e de Cabo Verde ilustram como esses instrumentos podem conciliar a gestão da dívida com os objectivos das políticas climáticas.
Com reformas políticas coordenadas, instrumentos financeiros inovadores e capacidades institucionais reforçadas, África pode quebrar o ciclo de vulnerabilidade climática e endividamento. Ao tirar partido de instrumentos como swaps de dívida por clima e obrigações verdes, e ao desenvolver estruturas robustas para o financiamento climático, o continente pode atrair investimento, aumentar a resiliência fiscal e lançar as bases para o desenvolvimento sustentável. Com empenho e colaboração, África está bem posicionada para transformar estes desafios em oportunidades de crescimento inclusivo e prosperidade duradoura.